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quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Um Conto de Agosto

Simone Delgado, professora do CED 4 de Sobradinho – DF

Num desses dias quentes de agosto, fiquei por quase duas horas após o recreio no anfiteatro que fica logo atrás da cantina da minha escola, o Polivalente. Lembro-me do sol subindo e do suor descendo do meu rosto e do dos meus amigos. Aquilo estava sendo mais comovente do que a hora cívica.

Todos nós estávamos em círculo, sentados no chão, enquanto minha professora de Ciências mexia num enorme aquário que tinha trazido de casa. Eu sabia que ela tinha trazido de casa porque nunca tinha visto aquário na escola e também porque, por sorte ou azar, ela era minha vizinha. Fato é: quem tem um aquário sem peixes? Bem, ela tinha um e parecia super feliz com isso. Eu achava, no alto dos meus 11 anos, que um aquário sem peixes era algo a se pensar com cuidado, afinal... Para que um aquário com plantas? Era como ter um aquário sem água.

Enfim, após muita concentração, minha professora parou de preparar o aquário e pediu que nos aproximássemos e olhássemos com vontade para as folhinhas das plantas. Notamos um monte de pequenas bolhas saindo delas, mas o que, para a professora, parecia um fenômeno surpreendente da natureza, para mim eram... bolhas. Depois de toda essa saga, ela explicou coisas sobre plantas e oxigênio.

Vários anos mais tarde, quando eu já concebia a existência de um aquário só com plantas e que um aquário sem água era um terrário, deparei com a mesma cena: meu professor de graduação montou um aquário com elódeas, nos levou para o sol e começou a dissertar um monte sobre os segredos maravilhosos da fotossíntese e o quanto a vida só era vida por causa desse processo.

Naquele fatídico momento, passei por um flashback. Só não senti o cheiro das frituras da cantina da escola, mas me lembrei da minha professora e seu aquário sem peixe e, finalmente, percebi as ligações entre ela e o meu professor de faculdade: ambos tinham espírito investigativo.

Graças a isso, naquele dia, uma década depois do meu primeiro contato com a fotossíntese, eu fechava um ciclo de aprendizagem.

Hoje em dia, fala-se muito que as crianças não têm “maturidade” para compreender a complexidade dos fenômenos e muitas vezes, quando ouço isso, me lembro dessa minha professora e do quanto eu fui feliz por ela ter se esforçado para nos apresentar a fotossíntese, um conceito considerado difícil. Hoje, penso que se ela não tivesse feito isso quando fui sua aluna, possivelmente eu teria outro nível de compreensão sobre esse processo e talvez achasse, até hoje, que todo aquário que se preze deveria ter peixes.

2 comentários:

  1. Quando temos a sensibilidade de verificar que o conhecimento é construído pouco a pouco, damos mais um passo pra nosso crescimento. Excelente postagem. Parabéns a profª Simone.

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  2. Foi maravilhoso ler e meditar no depoimento da Profa.Simone, pois me fez refletir em toda a minha construção de aprendizagem, quão profundo foi e tem sido. E me fez lembrar a bela frase de Paulo Freire, "Ninguém ignora tudo, ninguém sabe tudo. Por isso aprendermos sempre." Parabéns Simone!!! Excelente texto.

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